Archive for Maio, 2011

prelúdio.

30/05/2011

mas o frio não é só lá fora, é também nesse quarto onde se aloja essa alma esgotada de tantos invernos, já não ouve mais o canto que o dia traz ainda cedo e não conhece a dança dos anos de juventude serena – só sabe entender o ranger das fechaduras atadas e das trancas cerradas no caminho.

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silêncio.

24/05/2011

a mídia de massa nos fez meros espectadores, conhecemos as notícias, aprendemos os fatos, porém não participamos da construção da história. somos a plateia das distantes arquibancadas.

fatos.

21/05/2011

em menos de uma semana, as manchetes deixam os jornais e tornam-se passado. então, o passado torna-se esquecido, o esquecimento retorna à repetição e a vida permanece inalterada.

longa jornada dia afora.

17/05/2011
através da neblina noturna, vi os olhos selvagens da cidade, mil luzes.
ali naquele canto da noite, eu me senti cada vez mais inerte, desconectado da solidez inerente ao momento. eu me tornei a chuva caindo, o ar frio cortante, o cheiro dos pneus no asfalto, o vidro estilhaçado no beco raso, o céu cinzento vago e longínquo.
testemunhei minha carne transmutar-se em pedra, cobre e mármore, cantei com as vozes dos transeuntes nas calçadas e vibrei contra o vento antes da lua acenar no céu apagado. era eu esse pedaço vivo de um titã estático, um mundo sob outro mundo, resguardado no seu próprio silêncio aparente, prestes a estourar e emergir à superfície das águas, rasgar o véu e descobrir a peça e os atores no palco desnudo e saber que há muito mais do que apenas outro discurso além da palavra. muda-se o cenário, mas dança-se a mesma música e o roteiro já não é outro senão a repetição dos eventos. roda a roda, não há nada a mais, não há nada novo sob o céu que corteja. 

dialético.

13/05/2011

uma corrida atrás das cidades, dos anos, perseguindo os mundos e as loucuras que não se deixam capturar. há uma procura. pelas imperfeições, pavimenta-se a fuga; pelos desencontros, forma-se entendimento. da repetição, surge a genuína forma de ser, pensar e agir. as ideias concretizaram os fatos e a realidade gerou teorias – assim, de cada oposto inconciliável: consenso.

estreito.

11/05/2011

pensamos ter todo tempo do mundo, mas e se tudo acabasse por aqui? inacabado? Sem “fini” ou melodia? Assim, sem conclusão.

impedimento.

10/05/2011

o diabo plantou abismos entre os homens e as linhas foram cortadas, a comunicação estava proibida: assim o silêncio foi criado e tornou-se maior que a palavra. entre as bocas caladas, as pontes ruíram.

as migalhas.

07/05/2011

há estruturas que sofrem algum abalo e tornam-se ineficazes. como um relógio que parou de funcionar, uma peça quebrou por dentro, não se pode ver qual, mas se pode ter certeza que ocorreu – são esses relacionamentos que hoje são só a casca  de um corpo inerte, que partiu a engrenagem e cessou o movimento.

desconstrução.

07/05/2011

Os orgãos palpitantes: o coração, que não bate, maquina, com a precisão analógica; o pulmão enegrecido carregado de carvão e monóxidos, uma caldeira arfante; o óleo refinado, pesado, correndo artéria abaixo; a língua é apenas outra seta venenosa, um turgor ofídico; os olhos vítreos, a mente sílica, conectada; ouvido microfônico. A rotina de relógio que controla movimento e direção, cada passo: marca-passo; sentimentos programados, pré-fabricados, pensamentos extrusados, momentos dosados e medidos, vivências homeopáticas – vida em conta-gotas.