Archive for the 'inconstancia .' Category

os anos e as cidades.

10/03/2014

Vi o dia nascendo e subindo em chamas pelo rio impuro da cidade, uma cobra sorrateira serpenteia, os acúmulos de restos espalhados na superfície da beleza morta, que era selvagem, agora trancafiada no calabouço com argamassa. Os raios do dia trouxeram os jornais, dentro de cada um, uma notícia inexata das palavras que rondam as calçadas e os porões dos prostíbulos que todo patife anseia conhecer. Nos trens e metrôs, tantas vidas se entrelaçam, só aparentemente, num instante moroso de calor inconveniente, num aperto inconsolado no caminho entre-estações; nas chegadas, multidões escorregam até as escadas pelas plataformas úmidas, como ratos que patinham pelas calhas, um bolo de roupas e carne, um odor aqui, outro ali, rostos tão lânguidos, tão indecifráveis.
O sol escorre e transcorre pela vísceras dos edifícios supervalorizados, em locais tão caros de se viver, que se escolhe morar ou ter café-da-manhã. Esta era a cidade amada, que agora jorra teores pérfidos e alusões de grandezas desencontradas, que nos faz prisioneiros de uma guerra sacra em nome dos valores outorgados por mãos polutas, os abutres em arranha-céus e seu grande poder contra a auto-estima do homem comum, come-lhes as vontades lassas tal como fígados abertos dos animais da estrada. E de tantas aglomerações, as filas por de trás dos vidros fundidos dos bancos e lanchonetes, a vida é uma espera, uma espera extenuante entre sábados e feriados. A manhã vem aí, tingindo o concreto rachado ornado de bitucas e das sobras do banquete noturno, nascendo novamente, porém com ela nada de novo; a capital do esquecimento olvidou a si mesma e o que sobrou não bastou – não bastou para saciar a fome das bocas que expelem seu nome cinzento e dissaboroso, o paradoxo que colapsa sobre a própria cauda – quimera, teu nome é cidade!

metalinguagem .

21/06/2012
Dias a fio, nada à mente. Como se esperar por um feixe de nova inspiração? É tudo sem alocação, os pensamentos maream indefinidamente, as ideias não crescem longe de qualquer sol. O que tento gritar, apaga a voz rouca, e vejo como tudo está perdido, pelo menos por enquanto. Ao escrever, saem-me os borrões, palavra grotesca, sem afago, sem ódio, é somente banalidade mal escrita. Não é falta do que ter o que dizer, pois isso sei que há muito, vejo que é o não saber como escrever, melhores modos de trazer a língua ao papel, cuspir as linhas em sua ordem correta de forma que soem como a frase soa no crânio – a sentença perfeita, não a disforme que consigo escrever. E quantos não são estes miseráveis que carregam um livro no peito, e que não podem ditá-lo às mãos? Isso é também o que nos faz desfeitos.

carta aberta.

07/11/2011
e por tantas vezes, criei mil ardis para você cair, entrei no seu jogo e tentei me achar, acho que me perdi. Gastei meu tempo puxando o anzol errado e vi você fugindo, pequeno bateau. Ficamos correndo em círculos ao redor das coisas que sabíamos que jamais seriam, mas foi divertido, não foi? Foi tão desgastante que com o tempo nosso cansaço superava nossa vontade de falar, e assim ficávamos em silêncio profundo, você se fingindo de morta, sumindo aos poucos, eu tentando crer na normalidade desta ausência forjada. E nada do que dizíamos era falso, não havia conflitos, estávamos calmos e pacíficos, prontos para o abate. Mas você sempre foi a predadora, no fim, eu era a lebre no buraco mal cavado sem provisões para o inverno – sou tão patético. Quando você acenou com a última palavra, achei graça, tanta falta de amor, falta de brigas, nenhum ciúme, nenhuma palavra atravessada, penso que nos poupamos demais. Agora, o que me vem é só o desejo fálico de uma saudade específica e nominável.
só quero te lembrar: tem algumas coisas minhas com você, quando posso passar por aí?

1989.

31/10/2011
Com muitas mãos agarrando pedras, escavando a terra para sepultar os trechos e as passagens dos caminhos até aqui. Após vinte e dois anos, atingimos o auge de nossas loucuras, estar no topo é estar em perigo, esta foi a paranóia pregada nas salas e nos corredores institucionais da vida. Somos as criaturas vis que ousam matar o próprio criador, com desculpas para cada lacuna nos argumentos, caçando e pilhando até a poeira da estrada.
A herança que herdamos permanece intacta, mirrada e bem escondida nos arbustos incongruentes da mata-virgem. O corte da faca. As intenções afiadas. Os livros cativos onde as informações queremos ocultar. É uma palavra ingênua contra um insulto deslavado, é uma pequena mácula frente a toda malícia cultivada a partir de obscenidades irrelatadas. A obra-prima de gerações e maturações, somos filhos mimados e filhos anônimos, vestimos a carapuça feita sob medida por décadas de antecipação e expectativas patéticas: o homem que foi à Lua, o homem que criou o tempo, o homem que reinventou o homem. Quisemos crescer para tornarmo-nos piores, fazer jus a essas audácias que são aperitivos para os ímpetos desenfreados, outorgar-nos deuses a nossa imagem e semelhança, mas com os anos, as figuras serão apenas as caricaturas das dissimulações mais sinceras e das paixões mais caídas que encontrarmos para enfeitar a casa. Faz tempo, o espantalho foi desmascarado e a gentileza deixou o barco de vez.
Não somos fáceis, e sabemos dançar num pé só, na corda esticada sobre o desfiladeiro.

reconstituição.

23/10/2011

foi no cair da noite, ele buscou o whisky, bebeu e chorou. Nem tão no fundo, sabia bem o que aconteceria, os minutos afundavam como pedra no seio da penumbra, a luz da luminária tocava fragilmente os cantos apartados – no chão, papéis, cartas, documentos. As distâncias dos anos maiores que os quilômetros, a distância no coração sempre a maior dentre as outras. Faminto, tentava alimentar-se sobre velhas manias e ideias falsas, comer o papel rasgado com palavras sobrecarregadas de tinta e rancor, nada lhe enchia o desejo nem o ânimo. Já enxergava a morte nos textos escritos, nas bulas, nas propagandas insistentes, na mensagem escorrendo pelas caixas do rádio.

não muito certo das pistas que devia seguir e das que devia queimar, reunia as provas do crime ao seu redor, com a arma fumegante em mãos, pronto para matar, eternamente à espera de liberdade, preso naquele quarto tépido. Criou paradigmas para se encaixar, tão fora do espectro da história, não tinha as medidas das roupas que o vestia. Buscou concretizar em si e ser o bastante, o frágil ser humano que se erguia naquele apartamento amarelado esboçava a figura de um homem – mas os segundos mataram suas melhores horas. Ele temia e sabia o que temia, olhava o relógio, esperava. Viam-no beijando o cadafalso para aceitar seu destino, resignado. Envelhecera.

ltda.

13/10/2011
eu vivo a metodologia dos tubarões, com uma gravata de fibra de carbono e um aperto de mão eletrônico, ainda assim há compaixão na minha voz quando falo sobre liquidez e especulação. Quando você perguntar sobre mim, não pergunte sobre mim, vamos falar sobre meu portfólio, que está em alta, com mais ações no mercado de capitais, eu abri uma nova franquia, remodelei as estratégias para maior rentabilidade, refiz a maior parte das metas para encaixar na anual. Vou explicar um pouco sobre minha vida, veja, e aprenda, como ajustar lucros e pagar menos impostos, esse é o caminho, um caminhão de dólares – a tarifação alfandegária está cada vez mais abusiva, vou lhe mostrar a dedução contábil, que é o método dos lagartos. Já lhe falei das minhas virtudes? Acompanhe como faço esse cálculo bater, os juros estão estipulados, mas repare como eu posso colocar um adicional a curto prazo, pronto!, os valores futuros estão ajustados, é só esperar pela receita no balanço. Não perca essa chance. Entre no meu quarto, olhe o armário cheio de parafernálias, que não sei onde vou usar, mas saíram pelo melhor custo, você sempre pode pechinchar, o segredo é sempre agradar os acionistas, você sempre pode comprar mais, tudo de última geração: LED high definition digital smartphone wireless. Se você tentar seguir o meu conselho, me dê um feedback, vamos fazer um brainstorming para projetos inovadores, teremos um canal com o consumidor, realizar auditorias e criar vários processos em rede, seremos os melhores amigos de emails internos, vamos crescer juntos, 40% ao ano.

desconstrução.

07/05/2011

Os orgãos palpitantes: o coração, que não bate, maquina, com a precisão analógica; o pulmão enegrecido carregado de carvão e monóxidos, uma caldeira arfante; o óleo refinado, pesado, correndo artéria abaixo; a língua é apenas outra seta venenosa, um turgor ofídico; os olhos vítreos, a mente sílica, conectada; ouvido microfônico. A rotina de relógio que controla movimento e direção, cada passo: marca-passo; sentimentos programados, pré-fabricados, pensamentos extrusados, momentos dosados e medidos, vivências homeopáticas – vida em conta-gotas.

ruptura .

21/12/2010

abri os livros em busca da definição dos vícios armazenados na escora das paredes onde os escondemos e mostramos um rosto maquiado sobre uma face purulenta, bem guarnecida de boas intenções para que suspeitas não fossem levantadas. Eu tentei dizer seu nome com poesia, mas não fui capaz de entender a sonoridade que cada pequeno rancor gerou, agora sei bem onde está, você é a palavra morta em minha boca, que não absorveu a vida que eu pude dar.

pelo contrário .

09/12/2010

hoje, tudo é o seu oposto,  a camisa virada sem passar, o dia chuvoso sem sol e a luz acabou, nas ruas as lanternas e os cães procurando os donos que escaparam. Não chegaram as cartas nem os avisos de despejo, mas os atrasos todos chegaram mais cedo. O trabalho não veio porque estava de cama. As mãos duras abertas de dinheiro e as esmolas estateladas na calçada para os homens pobres em casacos importados. Nos bares, somente leite, nos ringues, valsa parisiense, nos ônibus, ainda muito espaço. Do rancor, veio um esquecimento, das intenções, só as mais honestas, as mentiras balofas caíram dos armários. Num dia tão absurdo, que pensei em você sem amor, sem saudade, só lembrei do meu livro emprestado que não voltou ainda.

direitos .

23/11/2010

há olhos nas paredes, atrás dos quadros e painéis elétricos; nas ruas e calçadas, figuram as cordas e os laços lustrosos prestes a capturar. De esquina em esquina, de movimentos esquivos a passadas largas, nasce a dança do escapismo, entre um gesto que não diz nada e outro que o tenta explicar. Em topos longínquos dos arranha-céus anônimos, abutres escolhem a carne da qual irão alimentar-se, descendo em rasantes sobre vítimas fiéis; como dias no calendário, tudo que se vê é esta gente que não passa de números numa planilha. São pessoas frágeis como as leis feitas para protegê-las.